Azul

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“Me diz por que o céu é azul…

Explica a grande fúria do mundo”

Dizem que acima de nossas cabeças está o céu. Ele não pesa sobre os meus ombros, quando criança diversas vezes tentei agarrá-lo, eu queria sentir suas formas, medi-lo de uma ponta a outra com meus dedinhos gorduchos… Eu gostaria de conhecê-lo.

Olhos, nariz, boca, ouvidos, cabelos… Eu conheço uma pessoa, sei ler nos sucos de suas faces seus traços e gestos… O sorriso e o choro. Minha mente registra tudo que eu toco e tudo o que me toca como a raiva e o amor, o carinho, a amizade. Mas o céu é intocável.

“Como é o céu?” eu perguntava para meus amigos, “Azul”, “Infinitamente azul” me respondiam. Mas o que é azul? “Uma freqüência do espectro luminoso uma cor…” A luz eu consigo sentir em meu rosto, mas o azul para mim é só uma palavra. Das cores eu só conheço a escuridão.

Minha vida prosseguiu, graduei-me em letras, casei e tive dois filhos. Lecionava em uma faculdade e como escritor alcancei certo prestígio. Superei as dificuldades da minha deficiência e com algumas adaptações eu levava uma vida “normal”. À noite, no entanto mesmo tendo se passado tantos anos, eu com minha cabeça pousada no travesseiro ainda tentava encontrar em meus sonhos o céu azul de minha infância.

Um dia ouvindo o rádio, tomei conhecimento de uma nova técnica, um sensor eletrônico que ligado ao cérebro gerava impulsos que prometiam restituir a visão. Aquela promessa da ciência ecoou durante dias em meus ouvidos, era tentadora a idéia de enxergar pela primeira vez, de redescobrir meus filhos, minha esposa, o mundo ao meu redor… O azul do céu.

Pesquisei sobre a técnica, minha lesão ocular era uma das deficiências contempladas pelos olhos digitais. Uma longa conversa se iniciou e após muitas cifras e expectativas minha operação estava marcada. Tudo ocorreu com êxito.

Os dias de repouso pós-operatório se arrastaram diante de minha ansiedade. Finalmente uma espera de quase cinqüenta anos teria fim, antes de retirar as faixas que cobriam meus novos olhos pedi que a primeira coisa que eu visse fosse o céu. Assim foi feito.

Lá estava o infinito. Sem começo ou fim, apenas o indescritível azul preenchendo o espaço. O céu era Deus.

Peões e Reis

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Seis horas indicam os ponteiros do meu relógio, os sinos da igreja de São José badalam repetidas vezes anunciado o fim de mais um dia. Caminho na contramão do fluxo e observo homens e mulheres seguirem cansados para os pontos de ônibus. Ombro a ombro eles dividem entre si o peso de seus problemas.

As ruas de concreto e os prédios se abrem como a boca de uma baleia assustadora e inevitável, para engolir cada um daqueles rostos, sempre tão iguais, como máscaras de um baile de carnaval.

Um frio percorre a minha espinha, a simples idéia de um dia me juntar aquele cortejo apático me enche de pânico. Bato três vezes na madeira do violão para afastar os maus pensamentos. Cantarolo em voz baixa meu mantra para o sucesso: “Basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo, tente outra vez”.

Sem perceber, eu havia completado o trajeto até a Praça Sete. Remexo o bolso em busca dos meus últimos trocados e compro um refrigerante para aplacar a sede. Resolvo descansar um pouco. Sentado entre os hippies observo num canto da praça os senhores de idade enfileirados na parede de um casarão, sentados com seus antigos tabuleiros de jogos.

Eles são uma tradição em Belo Horizonte, a calma de seus gestos e hábitos contrasta com a fome de vida da cidade, eles são resquícios de outra época cada dia mais apagada pelo tempo.

Algumas duplas disputam sobre o olhar atento da platéia uma partida de dama ou de xadrez. Enquanto os observo de longe, uma figura estranha chama a minha atenção. Seus cabelos brancos, amarrados num rabo de cavalo, pareciam não ter fim. Usava uma casaca antiga, de um azul desbotado, puída, com grandes botões dourados. A boca de dentes amarelados ostentava um charuto, soltava fumaças como a chaminé de uma locomotiva velha. Um Ray Ban preto escondia seu olhar dos curiosos.

Fiquei absorto diante daquele homem. Não me assustaria se ele tivesse saído das páginas de um livro. Seu rosto era tão enrugado que o tempo já não afetava mais suas feições. Era impossível calcular sua idade. Ele poderia ser tão velho quanto a morte.

Diante de uma figura tão peculiar, perdi a noção do tempo. A praça se esvaziara sem que eu tivesse me dado conta.

Eu estava prestes a partir quando o estranho senhor rompendo inesperadamente da sua inércia, convidou-me com um movimento de braço a sentar-me na sua frente, do outro lado do tabuleiro. Num misto de curiosidade e hesitação percorri a distância que nos separava.

_O que me diz de uma partida de xadrez meu jovem? Você joga xadrez não joga? Perguntou-me enquanto expelia uma fumaça densa e adocicada.

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente a sua pergunta.

_Muito bom! Falou aos risos, escancarando seus dentes amarelados. _O xadrez é um jogo de estratégia, podemos aprender com ele a alcançar nossos objetivos.

Seus dedos finos e ágeis retiraram de sua casaca dois saquinhos de pano, pelo barulho, as peças do xadrez estavam guardadas ali. Antes de me entregar um dos saquinhos, o velho me indagou:

_O que acha de uma aposta?

_Não tenho dinheiro, respondi. Ele estalou a língua em desdém e me retrucou:

_Dinheiro é um detalhe. As coisas mais valiosas do mundo não se compram com dinheiro.

_Apostaremos o que então? Perguntei curioso.

_Apostaremos sonhos. Qual o seu maior sonho?

Essa pergunta era fácil.

_Ser músico.

_Isso não é um sonho garoto! Você sabe tocar esse violão que está nas suas costas? Então! Você já é um músico. Um sonho é sempre um conjunto de “quereres”.  Prost falou uma vez “Não desejo uma mulher… Desejo também uma paisagem envolta nessa mulher”. Entende?

_Acho que sim.

_Então me diga. Qual o seu sonho?

_Meu sonho é encher um estádio com fãs. Quero pendurar um disco de ouro na parede de minha casa. Quero ligar o rádio e ouvir minhas músicas tocando nas estações.

_ Esse é um bom sonho… Se me vencer você o alcançará.

_E se eu perder?

Sua risada ecoando pela praça deixou bem claro o que aconteceria se eu perdesse. Apertei suas mãos frias para selar o nosso pacto, em seguida, ele me entregou um dos saquinhos com as peças do jogo. Despejei o conteúdo no tabuleiro e surpreso indaguei-o:

_Mas eu jogarei só com os peões? Onde estão as outras peças?

_Cada um se vira com as armas que tem garoto. Se quiser realizar o seu sonho é bom não achar problemas nem desculpas, lembre-se o que está em jogo.

Ainda contrariado coloquei minhas dezesseis peças em suas posições. “Como poderei ganhar essa partida?” eu me indagava.

_Podemos começar?

_Sim, respondi depois de alguns minutos, quando finalmente, encontrei uma estratégia para guiar os meus peões.

A minha idéia era muito simples. Avançar lentamente e em grupo, para cada peão perdido, levar em troca uma de suas peças.

Com cautela, mexíamos nossas peças. O velho iniciou o seu ataque com uma torre, um peão a menos no tabuleiro. Não deixei barato, sua torre acabou em minhas mãos.

_Uma boa estratégia garoto. Primeiro os amigos…

Outro peão fora de jogo.

_Depois a família…

Outro peão tomba no tabuleiro.

_Amores nem pensar.

Outro peão nas mãos esquálidas do velho.

_ Para cada escolha, um sacrifício e assim você avança conquistando em troca minhas peças mais valiosas.

O tabuleiro esvaziou-se rapidamente. A partida estava chegando ao fim. Peça após peça, minha vitória ia se materializando. Cheque Mate! O último peão cortou a cabeça do rei.

Eu havia vencido a partida. Um sorriso brotou do fundo da alma e derramou-se em meus lábios. Naquele momento, tudo parecia possível. Enquanto o velho me felicitava recolhendo as peças de volta para o saquinho, perguntei-lhe:

_Agora meu sonho se realizará?

_Mas é claro! O jogo é como a vida. Aproveite-se de suas peças, faça suas escolhas e arque com as conseqüências. Mantenha-se firme que o seu sonho se realizará.

Ele tinha razão. Eu já sabia tudo que precisaria fazer para alcançar os meus objetivos. Só tinha uma coisa que eu ainda não sabia:

_Senhor qual o seu nome?

O velho retirou os seus óculos e olhando-me com seus olhos negros como a noite, ele disse:

_Mefistófeles.

R.R.

add

Uma bala duas cabeças. Você primeiro a arma é sua, vamos tirar na sorte, pegue a moeda, cara, coroa, melhor de três, cara, coroa, coroa, cara, não tem jeito é sua vez, gira o tambor, que alívio, que tensão, a arma ainda quente troca de mão, gira o tambor passa a aflição, gira o tambor, dessa vez não sou eu não, gira o tambor pela última vez antes de cair ao chão. Acabou-se a polifonia, sobrou apenas uma voz.

Daltonismo

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Azul ou vermelho? Vermelho ou azul? Para mim a única diferença entre essas duas cores está na grafia. Daltonismo de acordo com o “mini Aurélio” é “um distúrbio visual que consiste na incapacidade de distinguir diferentes frequências do espectro luminoso”.  Na prática eu não conheço as cores azuis ou vermelhas, no meu cérebro elas se transformam em roxo.

Parar no sinal roxo, comprar uma camisa roxa do cruzeiro, comer uma suculenta maçã roxa. Como vocês podem ver o daltonismo nunca atrapalhou o meu dia a dia, eu estava acostumado com meu modo de enxergar o mundo, mas na vida tudo tem uma primeira vez.

Eu me formei em jornalismo, meu sonho era cobrir grandes acontecimentos mundo afora, mas acabei mesmo foi parando na cidade de Pontiguassu, no interior de minas, cuidando do jornal local. Pontiguassu era uma cidade típica de interior, vivia basicamente da agricultura e fora algumas festas e feiras realizadas ao longo do ano, era raro acontecer algo de interessante na cidade.  Por isso uma eleição fora de época movimentava tanto os ânimos dos cidadãos.

Os olhos do Brasil estavam apontados para Pontiguassu. O Prefeito eleito foi impedido de assumir o cargo. O escândalo ganhou repercussão nos telejornais, tinha muito dinheiro envolvido nos esquemas de corrupção, agora os pontiguacensses tinham a chance de escolher um novo prefeito, e dessa vez alguém melhor.

Faltava uma semana para as novas eleições, a praça da igreja estava lotada de espectadores, o último debate estava prestes a acontecer. Eu acabava de voltar de férias e caia de cabeça, meio perdido, naquele turbilhão político sendo o responsável por cobrir o debate.

Eu não conhecia os novos candidatos, sabia apenas que eram parentes, primos de segundo grau, alguma coisa assim… Chamavam-se Cláudio e Carlos. Tinham quase a mesma idade, eram advogados. Cláudio se candidatava pelo PCP, partido comunista pontiguacensse, e Carlos era o candidato do PDP, partido democrata pontiguacensse. Era um embate direto entre a esquerda e a direta local.

Na internet eu havia visto algumas fotos dos candidatos. Carlos tinha um rosto oval, olheiras escuras e um nariz fino. Seu primo Cláudio tinha os olhos claros, um queixo quadrado e o mesmo nariz fino. Os dois candidatos surgiram sob as vaias e aplausos do público, eu distante do palanque forçava as vistas em vão ao tentar distingui-los. Inocentemente perguntei a um colega ao meu lado:

__Você sabe quem é o Cláudio e quem é o Carlos?

__O Cláudio é o de camisa vermelha. O Carlos tá de camisa azul.

Agradeci sem jeito, para mim os dois candidatos estavam vestidos de roxo. “Não tem importância” pensei, poderia sem dificuldade identificá-los por suas idéias. O Slogan de Cláudio era “Uma vida melhor para o trabalhador” enquanto Carlos defendia “Uma economia forte e independente”.

Os dois candidatos foram apresentados ao público. Em pé no palanque eles se movimentavam de um lado para o outro, dificultando minha tarefa de identificá-los. O primeiro candidato começou seu discurso:

__Nosso país está imerso numa crise econômica global, por isso temos que nos unir e fazer os sacrifícios necessários para que o Brasil volte a crescer. Precisamos cortar gastos com a administração pública!

__Queridos amigos, rebateu o adversário político__ O excelentíssimo candidato chama de gastos os direitos do cidadão. Ele quer diminuir sua aposentadoria e seu seguro desemprego! Essa é a verdade que ele mascara!

A praça encheu-se de vaias e aplausos. Estava claro para mim que os discursos eram proferidos por Carlos do PDP e Cláudio do PCP. Mas aproveitei a confusão para me certificar.

__Não companheiro, me respondeu outro jornalista, quem discursou primeiro foi o candidato de vermelho e depois o candidato de azul. Você está cego?

Fiquei atônito, os candidatos contradiziam seus slogans. Agora tentaria reconhecê-los por suas vozes. Quando voltei meu olhar para o palanque os candidatos se rodeando voltaram a falar:

__Povo Pontiguacensse! Devemos estimular nossas empresas, não podemos deixar que o consumo caia, assim estaremos sempre aquecendo o mercado, gerando emprego. Vamos abaixar o preço do dólar e incrementar a indústria!

Eu estava quase certo que aquela era a voz do Cláudio do PCP.

__Caros eleitores, o candidato diz o que vocês querem ouvir, ele foge da verdade amarga. Precisamos do dólar alto para tornar nossas empresas competitivas. Temos que dificultar o acesso ao crédito. Antes de voltar a crescer é preciso parar de produzir e consumir em demasia.

Seria o Carlos do PDP que falava? “Meu Deus eu devo estar ficando louco”, suas vozes eram indistinguíveis. Um mal estar tomou conta de mim. Comecei a suar frio e a tremer.

O que aconteceu a seguir é de difícil explicação, eu considero sua causa o esforço contínuo e infrutífero que eu fiz durante horas de discurso, ao tentar achar uma diferença entre os dois candidatos.

Com as vistas doloridas e um zumbido no ouvido, o palanque a minha frente começou a girar e rodopiar. Achei que iria desmaiar, eu estava prestes a gritar por ajuda quando de repente todos os meus sintomas desapareceram.

Ainda ofegante olhei para frente e vi apenas um candidato com o dedo em riste, vociferando e apontando para os eleitores. Era impossível identificá-lo. Seu discurso não era de esquerda ou de direita, era um discurso de situação, servia apenas para criticar ou apoiar o que lhe convinha.

Percebi que os demais cidadãos aplaudiam e vaiavam o mesmo (o único) candidato,  no final das contas eles não conseguiam perceber que eles não eram vermelhos ou azuis, mas apenas roxos.

Psicologia Motora

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Aquela não seria a minha primeira vez com um psicólogo, eu já havia feito muitas sessões de análise, o bastante para não querer mais voltar a um divã. Eu estava certa de que os métodos de análise não serviam para mim, pelo menos não por muito tempo. Eu me livrava de um complexo e ganhava de brinde uma neurose. Perdida a neurose eu caia numa depressão, por fim descobria que a depressão era causada por um complexo. Eu sempre voltava para a estaca zero.

Eu estava decidida a abandonar os consultórios quando uma amiga me entregou um cartão “Psicologia Motora”, “Você nunca viu nada assim Helen, é impressionante… E funciona mesmo!”. Ela me contou as maravilhas do tratamento. Será? Questionei-me.

O cartão ficou na bolsa por alguns dias, por fim a curiosidade me venceu e eu marquei uma consulta para testar o “método inovador”.

O psicólogo me recebeu na porta do escritório, apresentou-se e pediu-me para acompanhá-lo. Descemos juntos até o estacionamento e seguimos em direção a um carro prata. Ele me entregou a chave do carro e pediu para que eu sentasse no lugar do motorista.

__Você conhece a praça da liberdade?

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente.

__Muito bem… É só dirigir até lá.

Eu estava confusa, quando nossa sessão iria começar? Será que ele me avaliaria na praça? Vendo minha hesitação ele disse.

__Isso faz parte do método. Não se preocupe é só dirigir.

E foi o que eu fiz, afinal de contas a consulta já estava paga, o que eu teria a perder?

Liguei o carro e sai pelas ruas, logo desemboquei na “Augusto de Lima”

__Você prefere que eu suba a Bahia ou a João Pinheiro? Perguntei.

__A que você preferir. Ele me respondeu.

Continuei dirigindo enquanto o psicólogo com sua caderneta fazia algumas anotações pontuais. Em alguns minutos de trânsito intenso alcançamos a praça. Depois de duas voltas buscando uma vaga em seu entorno eu consegui estacionar.

__Muito bem! Só preciso de alguns instantes para lhe dar um parecer.

“O Que? Isso foi a minha sessão?” pensei incrédula “Mais um método que fracassa!” conclui decepcionada. Não demorou muito o psicólogo quebrou o silêncio que preenchia o carro:

__Helen, você é muito indecisa, não gosta de encarar desafios e tende a negar as suas responsabilidades colocando a culpa nas pessoas ao seu redor. Esses são os pontos que temos que trabalhar com você.

Impressionante! Sem eu dizer quase nada o psicólogo havia me descrito de uma forma simples e direta como ninguém antes havia feito.

__Ma… Ma…Mas doutor, como você descobriu isso tudo? Eu só estava dirigindo!

__Exatamente! A direção é um processo mecânico que nós executamos de forma automática, desse modo algumas de nossas características acabam sendo expressas na nossa maneira de dirigir. Entendeu?

__Acho que sim…

__Por exemplo, uma pessoa indecisa tem dificuldades pra trocar de faixa, para escolher um caminho até a praça. Traços de negação aparecem quando xingamos os outros motoristas, a culpa pelo trânsito lento e pelo nosso atraso é sempre dos outros, nós sabemos dirigir eles não. Você deixou passar algumas vagas de estacionamento porque não queria manobrar, isso é um indício claro de pessoas que preferem pegar sempre o caminho mais fácil, mesmo que lhes custem algumas oportunidades.

__Impressionante! Exclamei.

__Tem muito mais… Pessoas egoístas, por exemplo, querem ultrapassar os outros carros de qualquer forma e dirigem quase sempre perigosamente, eles nunca dão seta. Na direção nós podemos mapear várias características do indivíduo e em conjunto tratá-las. E então posso marcar um próximo encontro?

__Sim!

O labirinto

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Meus pés seguem firme noite adentro, para disfarçar o medo tento não olhar para trás “Não tem ninguém me seguindo” repito em voz baixa para manter a calma. Viro-me de uma vez e contemplo uma rua vazia, um riso frouxo escapa de meus lábios, limpo o suor que escorre frio pela testa e volto com passos rápidos a vencer as distâncias da cidade.

No peito o coração se nega a desacelerar, “apenas mais uma rua e chegarei em casa”, o sangue bombeado com velocidade faz minhas pernas moverem-se cada vez mais rápido. Viro a esquina e para minha surpresa estou na rua errada. Procuro entre prédios e casas uma referência de minha localização e por um instante fico paralisado sem saber como isso aconteceu, eu estava perdido.

O som de passos quebra o silêncio e me traz de volta a realidade, na outra ponta da rua vejo um senhor de sobretudo afastar-se de mim “Ai está minha salvação”. Grito em vão por ajuda, com certeza os fones de ouvido o impedem de me escutar. Corro em sua direção. Na rua de pedra meus sapatos ecoam como os cascos de um cavalo, um arrepio percorre a minha espinha, minha cabeça instintivamente volta-se para trás, o ar foge de meus pulmões. Por um instante acredito ter visto uma criatura mover-se pelas sombras. Fixo meus olhos na escuridão, e vejo as sombras adquirirem suas verdadeiras formas, a um olhar atento elas se transformam em galhos e grades.

Ofegante eu praguejo em voz alta, o estranho senhor havia sumido durante minha distração nervosa. Com as mãos trêmulas eu acendo um cigarro, jogo sua caixa vazia ao chão e volto a caminhar.

No alto de um poste uma placa com o nome da minha rua me manda virar a direita, obedeço. Outra placa se encontra fixada mais a frente, agora suas coordenadas me pedem para “quebrar” à esquerda, mais uma vez obedeço. Refém de suas orientações eu sigo por ruas tão iguais que pareço andar em círculo.

Cansado e com o cigarro chegando ao fim eu paro em uma esquina qualquer, leio o nome “rua das flores” e vejo amassada na calçada a caixa de cigarros que a pouco eu havia descartado. Um desespero tomou conta de mim, nunca mais eu chegaria em casa.

Uma vontade de chorar invade o meu peito, meus olhos inundam-se. Num misto de raiva e loucura eu corria e gritava pelas ruas vazias. Nem uma pessoa, nem um carro passando, eu estava sozinho. Perdido eu adentrava em ruas que me levavam sempre ao mesmo ponto: a “rua das flores”.

Não sei quanto tempo se passou até que minhas pernas perdessem as forças e trêmulas sem conseguirem sustentar o meu peso, desabassem ao chão. Fiquei ali na calçada de pedras com o rosto sujo de lágrimas observando o nada, sem esperanças de encontrar uma saída para aquele labirinto.

Ainda caído uma pequena luz chamou minha atenção. Ela estava se aproximando de mim, “será um cigarro?” pensei enquanto sua intensidade aumentava “talvez uma lanterna”… ”Está mais para uma tocha”… Foi então que assustado percebi o monstro que se aproximava.

Durante toda a noite eu havia sentido sua presença. Ele parecia estar sempre um passo atrás de mim, espreitando o momento perfeito para me devorar. Sua cabeça bovina com largos chifres sustentava olhos imensos e narinas fumegantes. Não tive forças para reagir àquela aparição, minha voz havia emudecido e os meus olhos miravam hipnotizados a criatura do outro mundo.

O monstro aproximou-se rapidamente, olhou-me de uma ponta a outra e com sua voz bestial me perguntou:

_Senhor… Essa é a rua das flores?

Estupefato não conseguia responder-lhe, havia alguma coisa estranha naquela criatura. Diante do meu silêncio ela interpelou-me mais uma vez:

_Essa é a rua das flores?

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente a sua pergunta. O monstro agradeceu-me e começou a andar.

_Espere! Gritei para ele, aquela poderia ser minha única chance de obter alguma resposta. Você sabe onde fica a minha rua?

O olhar do monstro se encontrou com o meu, seus olhos tinham algo de humano, de louco. Após um instante de profundo silêncio ele começou a rir e gargalhar. Ele riu tanto que suas narinas começaram a exalar fumaça e seus olhos ficaram vermelhos e inchados.

Quando o abandonei o minotauro ainda se contorcia em risos. Decidi retomar minha caminhada. Passei por mais algumas ruas e vielas, li placas iluminadas pela luz laranja dos postes e outra vez me perdi na cidade.

Achei um isqueiro e acendi mais um cigarro, “rua das flores” pensei, eu havia passado por ela uma dezena de vezes naquela noite, esse nome me era tão familiar… ”Mas é claro!” exclamei em voz alta, minha prima morava em um apartamento nessa rua, eu estive tão nervoso que não havia me lembrado desse detalhe. A minha solução era voltar para a rua das flores e falar com a minha prima, ela daria um jeito para eu chegar à minha casa.

Animado com a perspectiva de abandonar o labirinto eu sigo exultante em busca da rua das flores.

Caído na calçada eu vejo o senhor de sobretudo, “dessa vez ele não me escapa! Vou-lhe perguntar onde fica a rua das flores!”. Aproximo-me dele, seus olhos me olham de uma ponta a outra tomados de terror.

_Senhor… Essa é a rua das flores?

Um silêncio incômodo segue a minha pergunta e eu torno a repeti-la:

_Essa é a rua das flores?

Com um aceno de cabeça ele me responde que sim. Uma felicidade toma conta de mim, só preciso achar o prédio de Beatriz para sair dessa loucura. Enquanto me afasto o estranho grita:

_Espere! Você sabe onde fica a minha rua?

Incrédulo meus olhos se encontraram com o do estranho. Não pude conter o riso. Gargalhando eu me contorcia no chão enquanto uma versão louca de mim perdia-se no labirinto da mente.

 Paulo Andrade Campos

A Greve

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O dia ainda estava escuro e algumas estrelas insistiam em ficar no céu quando Vitor saiu de casa para a faculdade. Seu relógio de pulso marcava 5:30 da manhã. O estudante logo chegou no ponto de ônibus e cordialmente  cumprimentou os outros passageiros que esperavam a condução. Mentalmente ele  repassou o trajeto que faria naquele dia: faculdade de manhã , trabalho a tarde , uma passadinha na casa da namorada a noite e depois de volta para sua casa, para seu merecido descanso.

Trinta minutos mais tarde Vitor olhou para seu relógio, o ônibus estava atrasado e com isso seu itinerário sofria mudanças “acho que não vou poder passar na casa da minha namorada, pois terei que sair mais tarde do trabalho para compensar o atraso” pensava o estudante calculando nos dedos as horas do seu dia que ainda nem tinha  começado. Os minutos continuaram movendo os ponteiros do relógio e no ponto de ônibus passageiros de diversos horários se uniam em preocupação e ansiedade. Juntos eles perderiam o médico, entrevistas de emprego e provas na escola, mas independente dos compromissos diversos  os passageiros tinham em comum a impotência diante do problema: não chegariam aos seus destinos pois os ônibus tinham entrado em greve.

Passado a esperança de conseguir um ônibus, os passageiros retornavam aos seus lares ou recorriam aos carros particulares entupindo assim as vias de trânsito, como uma aterosclerose, no fim Vitor e Cláudio colegas de faculdade  eram os últimos passageiros no ponto.

__  Os motoristas entraram em greve por melhoria de salários, mas e nós como ficamos ?

disse Cláudio revoltado com o dia perdido. Vendo o olhar de aprovação de Vitor, o estudante continuou:

__ Pago caro a passagem para ir em pé,  espremido por todos os lados sem poder nem mexer os olhos!

__  Isso quando o motorista não dirige como um doido mirando todos os buracos e acelerando nos quebra molas. Complementou Vitor.

__ E o sol de meio dia? Vem fritando os passageiros, nem para os ônibus terem um ar condicionado ou uma cortina, a gente pega um bronze sem querer.

Em poucos minutos os problemas enumerados pelos estudantes cresceram e superaram suas expectativas iniciais, nunca tinham pensado na quantidade de dificuldades que enfrentavam no transporte público e pior pagavam por isso, no fim da apuração Vitor que já se encontrava revoltado disse ao colega:

__ Essa greve é um absurdo! Um atentado ao meu direito de ir e vir! Quem deveria fazer greve somos nós os passageiros!

Após essas palavras os estudantes se entreolharam com um ar de malícia no rosto, tinham formado uma idéia: organizariam a greve dos passageiros!

Passado algumas semanas, a greve dos ônibus tinha acabado e todos os problemas voltaram à normalidade menos para Vitor e Cláudio, juntos eles tinham criado o sindicato dos passageiros, um órgão com o objetivo de unir a classe para que juntos pudessem protestar por melhorias no transporte. Através de ações na internet os estudantes divulgavam a greve convocando passageiros de toda a cidade a não pegarem ônibus nos próximos dias: “Passageiros de toda BH uni-vos! Lutemos juntos por um transporte público de qualidade”  “ Quem bate cartão não pega busão”, esses slogans logo conquistaram os passageiros da capital e foram repassados aos milhões, fossem por emails ou pelo boca a boca do povo que em quantidade massiva  se recusou a pegar um ônibus no dia 7 de setembro de 2014, o então denominado dia da Liberdade. O prejuízo calculado para os empresários do transporte era na faixa dos 15 milhões de reais, para os dois estudantes a greve estava sendo um sucesso.

Do outro lado da moeda o empresário Miguel Consolaro em reunião com seus colegas de trabalho ouvia os demais presentes debaterem sobre a tal greve dos passageiros:

__ Isso é uma loucura!  Os passageiros resolveram não sair de casa, não irão pegar ônibus até que nós atendamos aos seus pedidos.

__Quais são as exigências? Perguntou um dos empresários

__ Eles exigem a renovação gradativa da frota por ônibus mais modernos, com ar condicionado e TV, exigem que os ônibus passem com maior freqüência para que possam transitar com menos passageiros, exigem quadro de horários nos pontos de espera e a redução do valor da passagem em 30% !

Os empresários perderam a etiqueta quando ouviram a última frase, e amaldiçoaram o sindicato e os grevistas pelas exigências absurdas e abusivas, todos falavam ao mesmo tempo desesperados com as perdas econômicas geradas com um dia de greve:

__ Já tentaram subornar o sindicato? Propôs um dos participantes.

__ Foi a nossa primeira medida, mas os sindicalistas nem nos deixaram acabar de falar, disseram que as exigências são a única maneira de acabar com a greve, eles estão inalteráveis.

Diante dessas palavras os demais empresários se entregaram ao desespero, a greve de passageiros era uma coisa nova nunca antes combatida. Arrancando os cabelos, os engravatados calculavam os gastos e as perdas que teriam. “Quanto dinheiro jogado fora” era o lamento geral, Miguel era o único que parecia não se preocupar com a situação e tomando a dianteira falou para todos:

__ Meus caros não vamos nos deixar abater por essa bobagem, se toda vez que os passageiros entrarem em greve nós tivermos que atender as suas vontades, nunca mais teremos paz com esse negócio, deixem as coisas seguirem como estão… Em breve eles precisarão voltar para o trabalho, mais cedo ou mais tarde usarão os nossos ônibus.

Aquelas palavras acalmaram os ânimos dos empresários que exaltaram a profissionalidade de Miguel. Eles decidiram então deixar a greve transcorrer a vontade.

Passados três dias de greve Vitor e Cláudio comemoravam o rombo causado nos cofres das empresas de ônibus, mas olhavam com um ar preocupado o silêncio vindo das mesmas.

__ 45 milhões perdidos e eles não dão o braço a torcer! Exclamava Cláudio na sede do sindicato.

__ Eles querem nos vencer pelo cansaço, sabem que em breve os trabalhadores terão que voltar para as suas atividades, foi a resposta lógica que Vitor deu para o amigo.

Três batidas foram ouvidas na sala dos estudantes e a secretária Raquel entrou com notícias e um envelope:

__ Senhores as notícias são que passageiros foram vistos dentro de ônibus, as pessoas não podem mais ficar sem ir ao trabalho, se as coisas continuarem assim em poucos dias a greve irá acabar e todo nosso esforço será em vão!

Cláudio manteve a calma diante da secretária informando-a que tudo estava sendo resolvido, Vitor pegou o envelope e dispensou Raquel dizendo para a moça não se preocupar.

__ Não sei como você pode estar calmo Vitor! A nossa greve está por um fio!

O estudante ainda inalterável retirou um documento do envelope e mostrando-o para Cláudio respondeu:

__ Nesse pedaço de papel está nossa resposta. Cláudio olhou-o, estava visivelmente confuso.

__ Preste atenção nos números Cláudio, é um estudo sobre a frota de carros da cidade. Se fizermos as contas a cada quatro cidadãos um tem veículo particular, o problema é que na maioria das vezes essa pessoa sai com o carro “vazio”, ou seja, apenas ela no veículo, mas se cada um desses motoristas passasse em um ponto de ônibus e desse carona a um passageiro nós poderíamos estender a greve por muito mais tempo. “Genial”, foi a única palavra que Cláudio encontrou no seu vocabulário para descrever o plano de Vitor.

E assim foi feita mais uma campanha massiva na internet, seguida pela divulgação popular. Em  poucos dias os trabalhadores ofereciam e aceitavam cordialmente caronas de pessoas que não conheciam, mesmo morando tão perto umas das outras. Com isso a greve seria mantida.

No dia seguinte à manobra feita pelos sindicalistas, o empresário Miguel encontrou-se com seu amigo o juiz Carlos. Tomaram café juntos seguido por uma conversa:

__ Carlos meu amigo, essa greve dos passageiros tem atrapalhado o ganha pão de gente honesta como eu, eles simplesmente não nos deixam trabalhar!

__ Nem me fale, a minha empregada ficou alguns dias sem ir trabalhar, a minha casa ficou uma loucura! Por sorte ela arrumou uma carona agora e disse que não vai faltar mais.

__  Mas ai que está o problema meu amigo! , disse o empresário inconformado, se eles vão de carona a greve continuará por tempo indeterminado.

__ E por que vocês não atendem as suas exigências? As perdas já não superam o que foi pedido? Perguntou o juiz visivelmente curioso com o impasse que se prolongava há dias.

__ Carlos, Carlos… Não funciona assim, não pode ser eles pedem e nós damos entende? Caso isso acontecesse, eles se achariam os donos da situação e os papéis se inverteriam.

O juiz abanou a cabeça num sinal positivo concordando com a psicologia do empresário e por fim perguntou:

__ O que você deseja de mim então?

__ Quero que você julgue essa greve ilegal.

No dia seguinte Raquel adentrou na sala dos estudantes com o jornal em mãos, estava histérica falando sem parar.

__Calma menina! Foi à repreensão emitida por Cláudio, Fala com calma, o que aconteceu?

Tomando fôlego a secretário ordenou as palavras e disse:

__ A  nossa greve foi considerada ilegal e um juiz nos condenou  a pagar 1 milhão por dia caso ela não seja suspensa, tanto trabalho não pode acabar em nada!

Vitor e Cláudio trataram de acalmar a moça e após ela sair da sala começaram a discutir quais medidas iriam tomar. O dia passou mais rápido do que os dois desejavam, mas no final foi Cláudio quem achou a solução:

__ Nossa cidade tem mais de 4 milhões de habitantes sendo que destes pelo menos 2,5 milhões usam os ônibus como principal meio de transporte , isso significa que nosso sindicato atinge 2,5 milhões de sócios.

Vitor já sabia o que Cláudio queria dizer e sorrindo de felicidade pela solução encontrada completou:

__ Se cada passageiro contribuir com 0,50 centavos de doação diária, teremos dinheiro mais que suficiente para manter a greve, os empresários não terão solução precisarão nos dar o que pedimos.

Os dois amigos sorriram largamente imaginando a cara dos empresários quando as multas diárias fossem pagar sem problemas. E assim foi feito, as arrecadações chegaram ao valor necessário para manter a greve por pelo menos mais um mês.

Nos dias seguintes Miguel voltou a se encontrar com os demais empresários, todos estavam visivelmente abatidos, alguns já cogitavam a venda de patrimônio próprio para a manutenção do seu padrão de vida.

__ Caros amigos, resistimos duramente, mas chegamos num ponto insustentável, já perdemos muito mais dinheiro do que teríamos que aplicar para atender as exigências dos grevistas. A minha sugestão é fazer o que eles pedem antes que nosso negócio quebre de vez.

A resposta foi unânime: A greve tinha vencido. Dignidade seria dada aos passageiros de ônibus.

 Paulo Andrade Campos