O labirinto

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Meus pés seguem firme noite adentro, para disfarçar o medo tento não olhar para trás “Não tem ninguém me seguindo” repito em voz baixa para manter a calma. Viro-me de uma vez e contemplo uma rua vazia, um riso frouxo escapa de meus lábios, limpo o suor que escorre frio pela testa e volto com passos rápidos a vencer as distâncias da cidade.

No peito o coração se nega a desacelerar, “apenas mais uma rua e chegarei em casa”, o sangue bombeado com velocidade faz minhas pernas moverem-se cada vez mais rápido. Viro a esquina e para minha surpresa estou na rua errada. Procuro entre prédios e casas uma referência de minha localização e por um instante fico paralisado sem saber como isso aconteceu, eu estava perdido.

O som de passos quebra o silêncio e me traz de volta a realidade, na outra ponta da rua vejo um senhor de sobretudo afastar-se de mim “Ai está minha salvação”. Grito em vão por ajuda, com certeza os fones de ouvido o impedem de me escutar. Corro em sua direção. Na rua de pedra meus sapatos ecoam como os cascos de um cavalo, um arrepio percorre a minha espinha, minha cabeça instintivamente volta-se para trás, o ar foge de meus pulmões. Por um instante acredito ter visto uma criatura mover-se pelas sombras. Fixo meus olhos na escuridão, e vejo as sombras adquirirem suas verdadeiras formas, a um olhar atento elas se transformam em galhos e grades.

Ofegante eu praguejo em voz alta, o estranho senhor havia sumido durante minha distração nervosa. Com as mãos trêmulas eu acendo um cigarro, jogo sua caixa vazia ao chão e volto a caminhar.

No alto de um poste uma placa com o nome da minha rua me manda virar a direita, obedeço. Outra placa se encontra fixada mais a frente, agora suas coordenadas me pedem para “quebrar” à esquerda, mais uma vez obedeço. Refém de suas orientações eu sigo por ruas tão iguais que pareço andar em círculo.

Cansado e com o cigarro chegando ao fim eu paro em uma esquina qualquer, leio o nome “rua das flores” e vejo amassada na calçada a caixa de cigarros que a pouco eu havia descartado. Um desespero tomou conta de mim, nunca mais eu chegaria em casa.

Uma vontade de chorar invade o meu peito, meus olhos inundam-se. Num misto de raiva e loucura eu corria e gritava pelas ruas vazias. Nem uma pessoa, nem um carro passando, eu estava sozinho. Perdido eu adentrava em ruas que me levavam sempre ao mesmo ponto: a “rua das flores”.

Não sei quanto tempo se passou até que minhas pernas perdessem as forças e trêmulas sem conseguirem sustentar o meu peso, desabassem ao chão. Fiquei ali na calçada de pedras com o rosto sujo de lágrimas observando o nada, sem esperanças de encontrar uma saída para aquele labirinto.

Ainda caído uma pequena luz chamou minha atenção. Ela estava se aproximando de mim, “será um cigarro?” pensei enquanto sua intensidade aumentava “talvez uma lanterna”… ”Está mais para uma tocha”… Foi então que assustado percebi o monstro que se aproximava.

Durante toda a noite eu havia sentido sua presença. Ele parecia estar sempre um passo atrás de mim, espreitando o momento perfeito para me devorar. Sua cabeça bovina com largos chifres sustentava olhos imensos e narinas fumegantes. Não tive forças para reagir àquela aparição, minha voz havia emudecido e os meus olhos miravam hipnotizados a criatura do outro mundo.

O monstro aproximou-se rapidamente, olhou-me de uma ponta a outra e com sua voz bestial me perguntou:

_Senhor… Essa é a rua das flores?

Estupefato não conseguia responder-lhe, havia alguma coisa estranha naquela criatura. Diante do meu silêncio ela interpelou-me mais uma vez:

_Essa é a rua das flores?

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente a sua pergunta. O monstro agradeceu-me e começou a andar.

_Espere! Gritei para ele, aquela poderia ser minha única chance de obter alguma resposta. Você sabe onde fica a minha rua?

O olhar do monstro se encontrou com o meu, seus olhos tinham algo de humano, de louco. Após um instante de profundo silêncio ele começou a rir e gargalhar. Ele riu tanto que suas narinas começaram a exalar fumaça e seus olhos ficaram vermelhos e inchados.

Quando o abandonei o minotauro ainda se contorcia em risos. Decidi retomar minha caminhada. Passei por mais algumas ruas e vielas, li placas iluminadas pela luz laranja dos postes e outra vez me perdi na cidade.

Achei um isqueiro e acendi mais um cigarro, “rua das flores” pensei, eu havia passado por ela uma dezena de vezes naquela noite, esse nome me era tão familiar… ”Mas é claro!” exclamei em voz alta, minha prima morava em um apartamento nessa rua, eu estive tão nervoso que não havia me lembrado desse detalhe. A minha solução era voltar para a rua das flores e falar com a minha prima, ela daria um jeito para eu chegar à minha casa.

Animado com a perspectiva de abandonar o labirinto eu sigo exultante em busca da rua das flores.

Caído na calçada eu vejo o senhor de sobretudo, “dessa vez ele não me escapa! Vou-lhe perguntar onde fica a rua das flores!”. Aproximo-me dele, seus olhos me olham de uma ponta a outra tomados de terror.

_Senhor… Essa é a rua das flores?

Um silêncio incômodo segue a minha pergunta e eu torno a repeti-la:

_Essa é a rua das flores?

Com um aceno de cabeça ele me responde que sim. Uma felicidade toma conta de mim, só preciso achar o prédio de Beatriz para sair dessa loucura. Enquanto me afasto o estranho grita:

_Espere! Você sabe onde fica a minha rua?

Incrédulo meus olhos se encontraram com o do estranho. Não pude conter o riso. Gargalhando eu me contorcia no chão enquanto uma versão louca de mim perdia-se no labirinto da mente.

 Paulo Andrade Campos

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