Psicologia Motora

conto

Aquela não seria a minha primeira vez com um psicólogo, eu já havia feito muitas sessões de análise, o bastante para não querer mais voltar a um divã. Eu estava certa de que os métodos de análise não serviam para mim, pelo menos não por muito tempo. Eu me livrava de um complexo e ganhava de brinde uma neurose. Perdida a neurose eu caia numa depressão, por fim descobria que a depressão era causada por um complexo. Eu sempre voltava para a estaca zero.

Eu estava decidida a abandonar os consultórios quando uma amiga me entregou um cartão “Psicologia Motora”, “Você nunca viu nada assim Helen, é impressionante… E funciona mesmo!”. Ela me contou as maravilhas do tratamento. Será? Questionei-me.

O cartão ficou na bolsa por alguns dias, por fim a curiosidade me venceu e eu marquei uma consulta para testar o “método inovador”.

O psicólogo me recebeu na porta do escritório, apresentou-se e pediu-me para acompanhá-lo. Descemos juntos até o estacionamento e seguimos em direção a um carro prata. Ele me entregou a chave do carro e pediu para que eu sentasse no lugar do motorista.

__Você conhece a praça da liberdade?

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente.

__Muito bem… É só dirigir até lá.

Eu estava confusa, quando nossa sessão iria começar? Será que ele me avaliaria na praça? Vendo minha hesitação ele disse.

__Isso faz parte do método. Não se preocupe é só dirigir.

E foi o que eu fiz, afinal de contas a consulta já estava paga, o que eu teria a perder?

Liguei o carro e sai pelas ruas, logo desemboquei na “Augusto de Lima”

__Você prefere que eu suba a Bahia ou a João Pinheiro? Perguntei.

__A que você preferir. Ele me respondeu.

Continuei dirigindo enquanto o psicólogo com sua caderneta fazia algumas anotações pontuais. Em alguns minutos de trânsito intenso alcançamos a praça. Depois de duas voltas buscando uma vaga em seu entorno eu consegui estacionar.

__Muito bem! Só preciso de alguns instantes para lhe dar um parecer.

“O Que? Isso foi a minha sessão?” pensei incrédula “Mais um método que fracassa!” conclui decepcionada. Não demorou muito o psicólogo quebrou o silêncio que preenchia o carro:

__Helen, você é muito indecisa, não gosta de encarar desafios e tende a negar as suas responsabilidades colocando a culpa nas pessoas ao seu redor. Esses são os pontos que temos que trabalhar com você.

Impressionante! Sem eu dizer quase nada o psicólogo havia me descrito de uma forma simples e direta como ninguém antes havia feito.

__Ma… Ma…Mas doutor, como você descobriu isso tudo? Eu só estava dirigindo!

__Exatamente! A direção é um processo mecânico que nós executamos de forma automática, desse modo algumas de nossas características acabam sendo expressas na nossa maneira de dirigir. Entendeu?

__Acho que sim…

__Por exemplo, uma pessoa indecisa tem dificuldades pra trocar de faixa, para escolher um caminho até a praça. Traços de negação aparecem quando xingamos os outros motoristas, a culpa pelo trânsito lento e pelo nosso atraso é sempre dos outros, nós sabemos dirigir eles não. Você deixou passar algumas vagas de estacionamento porque não queria manobrar, isso é um indício claro de pessoas que preferem pegar sempre o caminho mais fácil, mesmo que lhes custem algumas oportunidades.

__Impressionante! Exclamei.

__Tem muito mais… Pessoas egoístas, por exemplo, querem ultrapassar os outros carros de qualquer forma e dirigem quase sempre perigosamente, eles nunca dão seta. Na direção nós podemos mapear várias características do indivíduo e em conjunto tratá-las. E então posso marcar um próximo encontro?

__Sim!

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Um comentário sobre “Psicologia Motora

  1. Lucas Lopes Valadares disse:

    Ótimo Paulo Campos.
    O texto revela como o ser humano é previsível de maneiras que até ele mesmo desconhece e nos convida a esta descoberta.
    [PS. adorei as referências em BH]

    Abraços

    Curtir

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