Azul

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“Me diz por que o céu é azul…

Explica a grande fúria do mundo”

Dizem que acima de nossas cabeças está o céu. Ele não pesa sobre os meus ombros, quando criança diversas vezes tentei agarrá-lo, eu queria sentir suas formas, medi-lo de uma ponta a outra com meus dedinhos gorduchos… Eu gostaria de conhecê-lo.

Olhos, nariz, boca, ouvidos, cabelos… Eu conheço uma pessoa, sei ler nos sucos de suas faces seus traços e gestos… O sorriso e o choro. Minha mente registra tudo que eu toco e tudo o que me toca como a raiva e o amor, o carinho, a amizade. Mas o céu é intocável.

“Como é o céu?” eu perguntava para meus amigos, “Azul”, “Infinitamente azul” me respondiam. Mas o que é azul? “Uma freqüência do espectro luminoso uma cor…” A luz eu consigo sentir em meu rosto, mas o azul para mim é só uma palavra. Das cores eu só conheço a escuridão.

Minha vida prosseguiu, graduei-me em letras, casei e tive dois filhos. Lecionava em uma faculdade e como escritor alcancei certo prestígio. Superei as dificuldades da minha deficiência e com algumas adaptações eu levava uma vida “normal”. À noite, no entanto mesmo tendo se passado tantos anos, eu com minha cabeça pousada no travesseiro ainda tentava encontrar em meus sonhos o céu azul de minha infância.

Um dia ouvindo o rádio, tomei conhecimento de uma nova técnica, um sensor eletrônico que ligado ao cérebro gerava impulsos que prometiam restituir a visão. Aquela promessa da ciência ecoou durante dias em meus ouvidos, era tentadora a idéia de enxergar pela primeira vez, de redescobrir meus filhos, minha esposa, o mundo ao meu redor… O azul do céu.

Pesquisei sobre a técnica, minha lesão ocular era uma das deficiências contempladas pelos olhos digitais. Uma longa conversa se iniciou e após muitas cifras e expectativas minha operação estava marcada. Tudo ocorreu com êxito.

Os dias de repouso pós-operatório se arrastaram diante de minha ansiedade. Finalmente uma espera de quase cinqüenta anos teria fim, antes de retirar as faixas que cobriam meus novos olhos pedi que a primeira coisa que eu visse fosse o céu. Assim foi feito.

Lá estava o infinito. Sem começo ou fim, apenas o indescritível azul preenchendo o espaço. O céu era Deus.

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