Peões e Reis

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Seis horas indicam os ponteiros do meu relógio, os sinos da igreja de São José badalam repetidas vezes anunciado o fim de mais um dia. Caminho na contramão do fluxo e observo homens e mulheres seguirem cansados para os pontos de ônibus. Ombro a ombro eles dividem entre si o peso de seus problemas.

As ruas de concreto e os prédios se abrem como a boca de uma baleia assustadora e inevitável, para engolir cada um daqueles rostos, sempre tão iguais, como máscaras de um baile de carnaval.

Um frio percorre a minha espinha, a simples idéia de um dia me juntar aquele cortejo apático me enche de pânico. Bato três vezes na madeira do violão para afastar os maus pensamentos. Cantarolo em voz baixa meu mantra para o sucesso: “Basta ser sincero e desejar profundo, você será capaz de sacudir o mundo, tente outra vez”.

Sem perceber, eu havia completado o trajeto até a Praça Sete. Remexo o bolso em busca dos meus últimos trocados e compro um refrigerante para aplacar a sede. Resolvo descansar um pouco. Sentado entre os hippies observo num canto da praça os senhores de idade enfileirados na parede de um casarão, sentados com seus antigos tabuleiros de jogos.

Eles são uma tradição em Belo Horizonte, a calma de seus gestos e hábitos contrasta com a fome de vida da cidade, eles são resquícios de outra época cada dia mais apagada pelo tempo.

Algumas duplas disputam sobre o olhar atento da platéia uma partida de dama ou de xadrez. Enquanto os observo de longe, uma figura estranha chama a minha atenção. Seus cabelos brancos, amarrados num rabo de cavalo, pareciam não ter fim. Usava uma casaca antiga, de um azul desbotado, puída, com grandes botões dourados. A boca de dentes amarelados ostentava um charuto, soltava fumaças como a chaminé de uma locomotiva velha. Um Ray Ban preto escondia seu olhar dos curiosos.

Fiquei absorto diante daquele homem. Não me assustaria se ele tivesse saído das páginas de um livro. Seu rosto era tão enrugado que o tempo já não afetava mais suas feições. Era impossível calcular sua idade. Ele poderia ser tão velho quanto a morte.

Diante de uma figura tão peculiar, perdi a noção do tempo. A praça se esvaziara sem que eu tivesse me dado conta.

Eu estava prestes a partir quando o estranho senhor rompendo inesperadamente da sua inércia, convidou-me com um movimento de braço a sentar-me na sua frente, do outro lado do tabuleiro. Num misto de curiosidade e hesitação percorri a distância que nos separava.

_O que me diz de uma partida de xadrez meu jovem? Você joga xadrez não joga? Perguntou-me enquanto expelia uma fumaça densa e adocicada.

Com um aceno de cabeça respondi afirmativamente a sua pergunta.

_Muito bom! Falou aos risos, escancarando seus dentes amarelados. _O xadrez é um jogo de estratégia, podemos aprender com ele a alcançar nossos objetivos.

Seus dedos finos e ágeis retiraram de sua casaca dois saquinhos de pano, pelo barulho, as peças do xadrez estavam guardadas ali. Antes de me entregar um dos saquinhos, o velho me indagou:

_O que acha de uma aposta?

_Não tenho dinheiro, respondi. Ele estalou a língua em desdém e me retrucou:

_Dinheiro é um detalhe. As coisas mais valiosas do mundo não se compram com dinheiro.

_Apostaremos o que então? Perguntei curioso.

_Apostaremos sonhos. Qual o seu maior sonho?

Essa pergunta era fácil.

_Ser músico.

_Isso não é um sonho garoto! Você sabe tocar esse violão que está nas suas costas? Então! Você já é um músico. Um sonho é sempre um conjunto de “quereres”.  Prost falou uma vez “Não desejo uma mulher… Desejo também uma paisagem envolta nessa mulher”. Entende?

_Acho que sim.

_Então me diga. Qual o seu sonho?

_Meu sonho é encher um estádio com fãs. Quero pendurar um disco de ouro na parede de minha casa. Quero ligar o rádio e ouvir minhas músicas tocando nas estações.

_ Esse é um bom sonho… Se me vencer você o alcançará.

_E se eu perder?

Sua risada ecoando pela praça deixou bem claro o que aconteceria se eu perdesse. Apertei suas mãos frias para selar o nosso pacto, em seguida, ele me entregou um dos saquinhos com as peças do jogo. Despejei o conteúdo no tabuleiro e surpreso indaguei-o:

_Mas eu jogarei só com os peões? Onde estão as outras peças?

_Cada um se vira com as armas que tem garoto. Se quiser realizar o seu sonho é bom não achar problemas nem desculpas, lembre-se o que está em jogo.

Ainda contrariado coloquei minhas dezesseis peças em suas posições. “Como poderei ganhar essa partida?” eu me indagava.

_Podemos começar?

_Sim, respondi depois de alguns minutos, quando finalmente, encontrei uma estratégia para guiar os meus peões.

A minha idéia era muito simples. Avançar lentamente e em grupo, para cada peão perdido, levar em troca uma de suas peças.

Com cautela, mexíamos nossas peças. O velho iniciou o seu ataque com uma torre, um peão a menos no tabuleiro. Não deixei barato, sua torre acabou em minhas mãos.

_Uma boa estratégia garoto. Primeiro os amigos…

Outro peão fora de jogo.

_Depois a família…

Outro peão tomba no tabuleiro.

_Amores nem pensar.

Outro peão nas mãos esquálidas do velho.

_ Para cada escolha, um sacrifício e assim você avança conquistando em troca minhas peças mais valiosas.

O tabuleiro esvaziou-se rapidamente. A partida estava chegando ao fim. Peça após peça, minha vitória ia se materializando. Cheque Mate! O último peão cortou a cabeça do rei.

Eu havia vencido a partida. Um sorriso brotou do fundo da alma e derramou-se em meus lábios. Naquele momento, tudo parecia possível. Enquanto o velho me felicitava recolhendo as peças de volta para o saquinho, perguntei-lhe:

_Agora meu sonho se realizará?

_Mas é claro! O jogo é como a vida. Aproveite-se de suas peças, faça suas escolhas e arque com as conseqüências. Mantenha-se firme que o seu sonho se realizará.

Ele tinha razão. Eu já sabia tudo que precisaria fazer para alcançar os meus objetivos. Só tinha uma coisa que eu ainda não sabia:

_Senhor qual o seu nome?

O velho retirou os seus óculos e olhando-me com seus olhos negros como a noite, ele disse:

_Mefistófeles.

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